Por trás do projeto

Casa é cultura, parte dos cultivos da humanidade no processo de sedentarização. A cultura estava nas pinturas rupestres, nas formas e formatos de construções que foram se erguendo da antiguidade até os dias de hoje. A cultura está nos arabescos e vitrais, mas também no samba de coco que pisou o chão das casas de barro. Casa é história, memória, é onde habitam nossos corpos, e o próprio corpo é casa...

 

Cultura é o que faz casa e logo depois a ocupa.

 

Segundo os dados do grupo de Mediações de Conflito da Secretaria Municipal de Habitação, em 2018 a cidade de São Paulo tinha 206 ocupações de moradia que abrigavam 45.872 famílias. Em 2020, devido a pandemia, os despejos aumentaram, levando a população a ocupações e com elas processos de reintegração. Assim, de acordo com a avaliação do LabCidade, cerca de 2.726 famílias foram afetadas por remoções na região metropolitana de São Paulo e outras 7.141 famílias sofreram ameaças de remoção.

 

Como herança da escravidão todo imóvel e edifício teve a mão de uma pessoa negra. O alicerce desse país foi construído pelo povo preto de forma concreta e simbólica, em cultura e estrutura. Palavras como dengo, xodó e cafuné que, mesmo engolidas pelo português, resistem no tempo ao ilustrar em nosso imaginário o afeto como estrutura que sustenta os mocambos, cafofos, unzós… Nossas casas. Mesmo assim, quando analisamos quem são as  pessoas sem acesso à moradia digna, vemos que, de acordo com o IBGE, 75% das pessoas que vivem na miséria eram de cor preta ou parda em 2018, um número desproporcional, já que essa população representa 55,8% do total de brasileiros (207,7 milhões). Dos 13,5 milhões de brasileiros que vivem em extrema pobreza, 10,1 milhões declaram-se de cor preta ou parda.

 

Na diáspora de um povo desterrado, sequestrado de seu chão de origem e jogado sem terra num país estranho, ainda sim surgiram lideranças, coletivos de luta, uns tantos Galangas, do Congo, coroados Chico Rei. Esse projeto é descendente de Chico Rei. É seu aprendiz e como ele se apropria da poeira do ouro para comprar a liberdade de seu povo. Esse projeto se inspira nos movimentos de moradia e como eles, questiona a ausência de direitos e do essencial para a equidade da dignidade humana. Mas sobretudo, esse projeto denuncia a desapropriação que os corpos negros sofrem desde a infância, quando meninas pretas perdem o direito e autonomia de seu corpo e meninos pretos não podem nem ao menos sentir, ou viver até a idade adulta. Essa desumanização, desde o despejo de si, até ser removido do mundo - dia após dia - cria calos internos, mas esse livro é um choro engasgado lutando para sair, para amolecer toda a dureza construída pela colonização e assim fortalecer nossas estruturas internas e externas. Esse livro é uma reapropriação de si e do mundo por seus verdadeiros donos: O povo.

 

A contracultura e a cultura marginal são algumas das respostas possíveis frente à negação de direitos básicos. É a voz do povo. Já que criar é ocupação, e essa expressão periférica pode abrir espaço pra que a população seja vista e para que seus problemas e demandas sejam discutidos. No entanto, apesar da enorme quantidade de criadores nas periferias, ainda é escasso o acesso à informação de como fazer circular essas obras. A publicação do artista Ciano, da Zona Leste de São Paulo, faz parte duma pesquisa prática do processo de produção e circulação de obras multimídia periféricas, sendo o lançamento dessa primeira obra também o lançamento do coletivo Peste Negra como uma produtora-escola de quebrada. A materialização desse livro-álbum serve ainda como incentivo a outras potências criativas iniciantes que podem ver, na representatividade da publicação, a possibilidade e a criação dum imaginário de futuro onde elas mesmas tenham suas idéias concretizadas, sendo o coletivo um apoio para que isso aconteça. 

 

Logo a Peste Negra, enquanto produtora-escola, tem como missão abrir caminho, iluminar e mapear a jornada e os recursos para que a cultura, expressão e vozes marginais possam alcançar os mais diversos lugares e contar as mais diversas histórias que povoam essas extremidades. Criar é parte da existência negra e periférica, é denúncia das demandas locais e expressão de suas potências. Esse projeto tem como objetivo fundamental que a produção das criações periféricas se faça um direito. Potencializando assim o alcance das favelas para que suas ideias cheguem aos espaços de decisão, sendo cada vez mais visibilizadas neles e enfim fazendo parte ativa deles, para que a partir da garantia de direitos básicos, fomentemos a criação de um mundo mais justo.

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